por Valcir “Quebra Mola”
Ô vivente, já parou pra pensar que o tempo não anda em linha reta?
A gente vive correndo pra frente, falando em progresso, mas parece que cada passo deixa um rastro de sujeira atrás.
Lembro das histórias que ouvi lá do Banhado Grande, quando eu era guri: os mais velhos diziam que o Rio Gravataí era mais que água, era parente.
Era como um tio velho que conhecia todo mundo, carregava segredos de milênios e sabia quando a gente precisava de silêncio.
Hoje, olho pro Gravataí e vejo um rio cansado, com a respiração curta.
Não é só impressão: segundo o IBGE, ele já chegou a ser o quinto rio mais poluído do Brasil.
É esgoto, é veneno, é lixo que a gente joga com a própria mão.
Mas esse rio já viu Guarani pescando de canoa, já foi caminho de Kaingang, já refletiu o céu limpo antes do primeiro colono abrir clareira.
Ele nasceu muito antes da gente e, se a gente não aprender a respeitar, vai ficar pra contar a história do que a gente fez ou deixou de fazer.
Outro dia li o livro Futuro Ancestral, do Ailton Krenak, um sábio lá das Minas. Ele disse uma coisa que me grudou na cabeça,
“Precisamos suspender o céu novamente, para que ele não caia sobre nossas cabeças.”
É um jeito bonito de dizer que a Terra tá pedindo pra gente parar de esfolar ela.
Que o futuro só existe se a gente tiver coragem de ouvir quem já sabia viver em harmonia, nossos ancestrais.
Talvez o Gravataí esteja nos dando esse recado.
Não é só um rio poluído: é um parente doente, chamando a gente pra conversa. E conversa boa começa com respeito.
Então, vivente, da próxima vez que tu cruzar a ponte ou ouvir falar de reflorestamento, lembra: cuidar do rio é cuidar da gente.
Porque sem rio não tem história, e sem história, não tem futuro