Por Juliana Barros | @apedritadoradio
No Brasil, até a morte precisa passar pela burocracia. Gente intoxicada, internações, famílias em desespero, e o que ouvimos dos órgãos oficiais? “Estamos aguardando a perícia para confirmar as marcas.” Ora, convenhamos: nos primeiros casos de hospitalização já se sabia o que havia sido consumido e onde. As vítimas não bebem rótulos invisíveis, bebem garrafas com nome e sobrenome. Mas enquanto a dor corre solta nos corredores dos hospitais, o veneno engarrafado descansa em prateleiras, protegido pelo silêncio.
Até agora, 209 casos de intoxicação por metanol foram registrados em estados como São Paulo, Pernambuco, Paraná, Mato Grosso do Sul, Paraíba, Ceará, Distrito Federal, Rio Grande do Sul, Goiás, Mato Grosso, Rondônia e Piauí. Quinze mortes confirmadas. Casos de cegueira permanente. E ainda assim, nenhum nome de marca, nenhum endereço de venda foi divulgado. Como se a preservação da imagem de um mercado bilionário valesse mais do que a vida humana.
O metanol, presente em bebidas destiladas (gin, uísque, vodca) é um veneno conhecido: pode causar visão turva, náuseas, vômitos, dores abdominais, cegueira e morte. E, mesmo assim, a imprensa repete números frios, sem pronunciar nomes. Como se um rótulo tivesse mais dignidade que o corpo de uma pessoa que morreu bebendo aquilo que comprou.
Quando o suspeito é pobre, a manchete surge antes da investigação. Quando o suspeito é o mercado bilionário de bebidas, a Justiça pede calma, pede tempo, pede cautela. O tempo que os fígados intoxicados não têm, o tempo que os rins não suportam, o tempo que famílias não podem devolver aos mortos. Protegem-se as marcas. Expõem-se os doentes.
Investigadores apontam que o metanol tem origem em álcool de combustível misturado de forma ilegal, repassado a destilarias clandestinas e distribuidores informais. A falta de fiscalização e rastreabilidade transforma o que poderia ser uma tragédia isolada em um surto nacional. E, mais uma vez, o lucro e a imagem do mercado bilionário vêm antes da proteção da vida.
Esta não é apenas uma crise sanitária. É um reflexo de uma nação que ainda permite que o veneno legalizado do lucro e do poder se sobreponha ao direito mais básico: sobreviver. Não é só metanol. É a mesma substância que sempre nos intoxica: a mistura letal de lucro, poder e silêncio.