Por Juliana Barros | @apedritadoradio
A discussão sobre o curso de Medicina do Cesuca tem provocado reações quase instintivas, e, entre elas, a mais ruidosa é a resistência do Conselho Regional de Medicina (CREMERS). Quando olho para esse embate, percebo algo que vai além de pareceres técnicos ou argumentos regulatórios. Há também, por parte de algumas entidades, uma visão profundamente marcada por um modelo antigo de controle e de preservação de “zonas de influência” acadêmicas e hospitalares.
É claro que a fiscalização é necessária. É claro que um curso de Medicina exige rigor, convênios sólidos e campos de prática qualificados. Não há como discordar disso. Mas quando uma cidade como Cachoeirinha, que há décadas espera por investimentos estruturais na saúde, finalmente vislumbra a possibilidade de abrigar uma universidade que forma médicos, é impossível não sentir que, por trás da resistência, existe também um pouco de medo. Medo do novo. Medo de perder protagonismo. Medo de permitir que regiões antes invisibilizadas passem a ocupar lugar no mapa do ensino superior de qualidade.
Porque sejamos honestos: uma escola de Medicina não empobrece um território, ela o enriquece. Na prática, ela cria uma pressão saudável sobre hospitais, gestores e governos.
O Hospital Padre Jeremias, em Cachoeirinha, e o João Becker, em Gravataí, já são peças fundamentais no atendimento regional. Mas a presença de um curso de Medicina pode funcionar como um catalisador: exige melhorias, amplia especialidades, atrai profissionais que não viriam para cá espontaneamente e, sobretudo, institucionaliza processos que antes dependiam apenas da boa vontade individual de médicos e gestores.
Uma universidade cobra mais do que ela mesma entrega. E isso é bom.
É assim que as cidades crescem. É assim que regiões se fortalecem.
A verdade é que, historicamente, conselhos profissionais tendem a defender o campo que já conhecem, com receio de que uma nova instituição “incompleta” fragilize a formação médica. É um argumento compreensível, mas insuficiente. Porque quando a crítica se transforma em veto, e quando o veto ignora os potenciais sociais e estruturais para a cidade, estamos diante de um conflito que deixa de ser técnico e passa a ser ideológico, e, pior, desigual.
Cachoeirinha sempre esteve à sombra dos grandes centros. Sempre fomos atendidos “aos pedaços”: um pouco de estrutura aqui, uma reforma ali, um investimento tímido acolá.
Mas pela primeira vez, surge a possibilidade de um ciclo virtuoso, aquele em que universidade, poder público e serviços de saúde se retroalimentam.
A CESUCA, ao propor a criação de uma unidade escola na ESF Otacílio Silveira, não está apenas abrindo salas de aula. Está propondo que parte das mensalidades do curso de Medicina seja reinvestida diretamente na Atenção Primária. Isso significa equipamentos, obras, capacitação, bolsas, ampliação de atendimento. Significa romper a lógica de escassez que sempre nos acompanhou.
Por isso, é importante dizer: Sim, queremos, e merecemos, uma universidade de Medicina.
Mas também é preciso ser claro: As autoridades políticas precisam garantir que a infraestrutura acompanhe esse passo histórico.
Não basta autorizar. É preciso planejar. Não basta inaugurar. É preciso manter.
A universidade chega com a expectativa de modernização, mas as cidades só colhem os frutos quando assumem a responsabilidade de acompanhar o ritmo.
Se quisermos que Medicina no Cesuca seja mais que um título, se quisermos que ela transforme a vida das pessoas e fortaleça nossa rede de saúde, teremos que agir com coragem: a coragem que o Conselho, preso a modelos ultrapassados, hesita em demonstrar; e a coragem que, por muitos anos, faltou aos gestores públicos que aceitaram migalhas em vez de exigir reformas estruturais.
A cidade muda quando decide mudar. Talvez a chegada da Medicina seja justamente esse ponto de virada, não apenas acadêmico, mas simbólico.
Cachoeirinha precisa dessa chance. E, sobretudo, precisa honrá-la.